“26 anos, 26 testemunhos” – Gabriela Albuquerque

27 Agosto, 2021

“Dei o passo certo ao vir trabalhar para o HFF. Vivemos, rimos e chorámos, mas crescemos em conjunto. Sei que foi a melhor opção e voltava a repetir tudo outra vez”.

“Desde criança que a minha vontade e convicção era trabalhar em hospitais e ajudar os doentes”, começa Gabriela Albuquerque, enfermeira-gestora do Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca (HFF). Assim, é natural que a sua escolha tenha sido a enfermagem, terminando o seu curso em dezembro de 1986.

Foi no Hospital Santo António dos Capuchos que começou a exercer a sua profissão, entre janeiro de 1987 e maio de 1995. A história destes 26 anos iniciou-se um pouco antes, em 1993, com um convite que acaba mais tarde por resultar na seleção para fazer parte da equipa de enfermagem do HFF.

“No princípio éramos cerca de 15 enfermeiras. Corredores compridos, torres altas e salas vazias. Sem móveis, sem equipamentos, sem normas e sem doentes…”, recorda Gabriela Albuquerque. O desafio era enorme: foi preciso comprar tudo, as fardas, as loiças, os materiais, criar tudo, montar tudo, arrumar tudo e preparar tudo para recebermos os nossos doentes com a maior qualidade.

Preparava-se então a abertura do Hospital para finais de 1993, que foi sendo sucessivamente adiada, apesar de estar já selecionada a equipa de enfermagem e um conjunto de profissionais noutras áreas. Foi tempo aproveitado para realizar o complexo trabalho de organização de procedimentos, protocolos e outros documentos, para a enfermagem e auxiliares de ação médica, sendo que algumas dessas reuniões realizavam-se em casa de colegas.

“Vínhamos visitar o Hospital, ainda pelo caminho de terra batida, passando pelo cemitério da Amadora, descendo até à entrada do corredor do refeitório. Tínhamos reuniões com os construtores e arquitetos … parede aqui, balcão ali, porta, gases medicinais…” continua a enfermeira-gestora. Em abril de 1995 fazem-se então as “1ªs Jornadas do HFF”, com a apresentação dos trabalhos e projetos realizados para o Hospital, cabendo-lhe apresentar, juntamente com a enfermeira Alvellos Leitão um trabalho com o tema “Acolhimento do Utente – Perspectivas de alguns Serviços do HFF (Serviço de Urgência Geral).

A 1 de junho de 1995 entra oficialmente no HFF, com a tarefa de abrir e chefiar o primeiro serviço de internamento, com as valências de Cirurgia Geral e Especialidades Cirúrgicas, nomeadamente: Ortopedia, Urologia, Oftalmologia e Otorrinolaringologia. Este serviço estava situado no piso 3 da torre Sintra – CIRURGIA A – com 29 camas, seis das quais eram de cuidados intermédios, com capacidade para dois doentes ventilados.

E aqui começou o maior desafio profissional que teve até hoje. “Vivi e experienciei várias situações, que levaram ao crescimento pessoal e profissional”, assegura Gabriela Albuquerque, destacando que a “sua equipa” era na sua maioria composta por enfermeiras recém-formadas, auxiliares com relativamente pouca experiência na área de saúde, sendo necessário realizar ações de formação antes de todos iniciarem funções.

Há pequenos pormenores que perduraram na memória: “inaugurámos o primeiro serviço de internamento no dia 28 de junho, uma quarta-feira, (todos os serviços eram inaugurados nesse dia da semana)”, diz. A primeira doente internada no serviço foi da especialidade de cirurgia geral e foi submetida a cirurgia no dia 3 de julho, naquela que foi também a primeira cirurgia a ser realizada no HFF.

A entrega era total e desde o referido dia 28 de junho de 1995 que Gabriela Albuquerque quase passou a viver no HFF. Os episódios marcantes são muitos, mas recorda um em especial: “logo em agosto, um doente com falência renal necessitou de diálise, mas as máquinas ainda não estavam prontas para serem utilizadas, pelo que o doente precisou de ser submetido a Hemodiafiltração. Uma vez que só a enfermeira Alvellos Leitão e eu sabíamos realizar esta técnica, revezávamo-nos para fazer o tratamento ao doente. Mas numa sexta-feira e sábado tal não foi possível, pelo que permaneci 32 horas no serviço, para que o doente não entrasse em falência renal. Tudo correu bem e o doente teve alta, com a sua situação resolvida”. Dedicação e entrega, são as palavras que melhor caracterizam este episódio.

No seu percurso no HFF participou na abertura de mais dois serviços de cirurgia, um serviço de medicina interna com uma vertente importante de Doenças Autoimunes. Coube-lhe também chefiar diversos serviços, desde o Serviço de Urgência Geral, Internamentos e Imagiologia

Em 2002 e 2004, a equipa por si chefiada nessa época e com a conivência da sua Mãe, enriquecem e mudam a sua vida, com a oferta de dois cães da raça Yorkshire Terrier. Ambos nascidos em outubro, chegaram aos seus cuidados com apenas com dois meses de vida: o MALDINIE (21 outubro de 2002 a 25 novembro 2018), de origem italiana, e a LILLLI (8 outubro 2004) de origem espanhola.

“Estes pequenos seres enriqueceram e modificaram para melhor a minha vida e a vida de todos os que me rodeiam. Dão-nos amor incondicional, nunca estamos só, nem tristes e a forma de comunicarem connosco é única, mas só entende esta relação quem tem animais. A sua partida é dolorosa demais e vivem para sempre connosco. Foi sem dúvida, o melhor presente que me deram até hoje e sempre irei ter animais”, diz Gabriela Albuquerque com indisfarçável paixão.

“No HFF sucederam já diversas situações de doentes em fase terminal em que estes e a família me pediram a visita do animal de estimação, com quem os doentes partilharam a vida. Toda a equipa criou as condições necessárias, para a breve visita, o que fez toda a diferença para os envolvidos e foi deveras emotivo. A alegria e surpresa do doente e do cão, foi algo indescritível e maravilhoso. Tivemos o privilégio de partilhar estes breves momentos e a paz e tranquilidade dos doentes mostraram-nos o quanto agimos bem”, recorda com emoção. Talvez por isso o HFF tenha definido internamente, em diversos documento de trabalho, a possibilidade de animais de assistência/companhia a doentes internados em fase terminal.

O seu percurso no HFF é rico: em 2016 passa integrar a equipa de Produção, como Gestora Departamental, responsável pelas áreas do Bloco Operatório, Unidade de Cirurgia Ambulatória e Central de Esterilização. Em 2019, novas experiências ocorreram: integra a Academia Formação do HFF, na Unidade de Formação e Ensino; concretiza-se o reposicionamento da categoria de enfermeira chefe, para a categoria de Enfermeiro Gestor, e passa a colaborar com o Serviço de Compras e Logística do HFF, na normalização dos consumíveis, concursos, júri de concursos e articulação com os diversos intervenientes.

Em 2020, surge um desafio que vem mudar hábitos, formas de estar e até de ser. Tal como nas vidas de quase todos, também a pandemia tem impacto na vida profissional de Gabriela Albuquerque: entre março de 2020 e julho de 2021 é designada Coordenadora do Centro de Rastreios COVID-19 do HFF, uma tarefa de grande relevância no combate a esta doença que tem vitimado milhões de pessoas em todo o mundo.

Desde maio do ano em curso que, por indicação do Conselho de Administração, passa a chefiar o serviço de Neurologia. Nestes 26 anos no HFF, em paralelo com as suas funções, prosseguiu com a sua formação académica, destacando-se a licenciatura em Gestão de Saúde, pós-graduação em Gestão Integrada de Cuidados de Saúde e a coordenação da Pós-Graduação Internacional em Tratamento de Feridas, na Universidade Atlântica, entre outros feitos muito relevantes no seu currículo.

“Agora com quase 34 anos na carreira de enfermagem, com várias experiências profissionais, dentro das minhas áreas de competências, em que sempre tive como forma de estar fazer pelo próximo o que gostaria para mim e para o que mais amo, privilegiei sempre em primeiro lugar os profissionais, pois se eles não estiverem bem, física e psicologicamente, não prestam cuidados de qualidade aos doentes, e estes merecem toda a nossa atenção e cuidado”, diz Gabriela Albuquerque. Mas esta afirmação é feita sem pretensões ou altivismo, até porque recorda que já foi doente e familiar de doente antes e depois de ser profissional de saúde, pelo que “não podemos nunca esquecer que todos somos sempre pessoas, não ‘desligamos o botão’ e passamos de pessoa a profissional, ou vice-versa”.

Entretanto surgiu um novo desafio na sua vida pessoal e irá integrar uma lista de candidatura às eleições autárquicas que se realizam no próximo mês de setembro. “A vida é feita de desafios e eles fazem parte de mim, são sempre estimulantes e aprendemos sempre, desde que os abracemos com vontade e dermos sempre o nosso melhor”, entusiasma-se.

Atualmente são cerca de 1.100 enfermeiros no HFF e 28 anos depois de tudo começar, milhares de pessoas e doentes têm passado por esta Instituição. Tempo e experiência suficientes para Gabriela Albuquerque fazer um balanço: “Dei o passo certo ao vir trabalhar para o HFF. Vivemos, rimos e chorámos, mas crescemos em conjunto. Sei que foi a melhor opção e voltava a repetir tudo outra vez”.

E faz questão de deixar uma mensagem final: “um bem-haja a todos os profissionais com quem tive o privilégio de trabalhar e chefiar, e aos doentes, a quem sei que sempre demos o nosso melhor, mas acreditando, que sempre podemos fazer melhor, desde que tenhamos condições para o fazer”. Mas, permitam-nos todos aqueles que leem este texto, somos todos nós que lhe agradecemos, senhora enfermeira Gabriela Albuquerque, por toda a sua dedicação ao HFF, pelo companheirismo aos seus colegas e por todo o profissionalismo que dedicou aos utentes!

Fotografias de arquivo.