
Por Doutor Pedro Farto e Abreu
Coordenador da Unidade de Cardiologia de Intervenção da ULS Amadora/Sintra
O dia 14 de fevereiro é assinalado como o dia do doente coronário.
As doenças cardiovasculares são a maior causa de mortalidade nos países desenvolvidos e, naturalmente, Portugal não foge à regra.
Grandes progressos na diminuição da mortalidade cardiovascular têm sido feitos no nosso país, e será expectável que daqui por algum tempo, as doenças neoplásicas, ou mesmo as do aparelho respiratório, se aproximem, ou mesmo a possam ultrapassar.
Dentro das doenças cardiovasculares, responsáveis por cerca de 30% da mortalidade, é verdade que a doença cerebrovascular (acidentes vasculares cerebrais), possa matar mais que a doença cardíaca propriamente dita.
Dentro da doença das artérias coronárias, responsável pelo enfarte agudo do miocárdio, e pelos sintomas limitantes da “angina de peito”, temos assistido a uma “verdadeira revolução” nos progressos do seu tratamento.
Se é verdade que criação das Unidades de Cuidados Intensivos Coronários, na década de 70, representaram a primeira grande causa para a diminuição da mortalidade cardíaca, o aparecimento na década de 80 dos medicamentos, chamados “trombolíticos” (capazes de dissolver o trombo formado na artéria cornaria e causador da sua oclusão, responsável pelo enfarte), tiveram um papel decisivo na diminuição da mortalidade por enfarte, principalmente se poucas horas após o mesmo, os/as doentes tivessem possibilidade de ser submetidos/as a um cateterismo e consequente processo mecânico de desobstrução da artéria: procedimento conhecido como angioplastia coronária.
No entanto, a evolução do tratamento destes/as doentes, e principalmente daqueles/as que se apresentam com determinadas características no electrocardiograma de fase aguda, (supradesnivelamento do segmento ST), sofreu uma evolução fantástica com a realização do cateterismo e consequente angioplastia coronária com colocação de “stent” (malha metálica e posteriormente revestida com fármaco, que se implanta na artéria obstruída), que melhorou muito os resultados à distância, em termos de mortalidade.
Podemos dizer que a mortalidade hospitalar destes doentes se situa já entre os 5-7%. Aliás, a angioplastia coronária é hoje o tratamento de eleição de todos os/as doentes com enfarte.
Portugal tem apresentado resultados cada vez melhores e a sua participação em protocolos internacionais como “Stent for Life” e “Stent Save a Life”, têm vindo a colocar-nos na vanguarda deste tratamento.
Têm sido desenvolvidas campanhas de sensibilização da população com os sintomas mais frequentes do enfarte, como a dor no peito com sensação de aperto e angustia, nos braços, no maxilar inferior, nas costas, acompanhados de náuseas e vómitos, para que os doentes chamem, o mais rapidamente possível, o 112.
Para que, além de poderem – desde logo – usufruírem de apoio médico especializado (evitando complicações graves precoces), poderem também ser transportados através da “Via Verde Coronária” para os hospitais “certos”, como o HFF, pois são aqueles que estão equipados com Unidades de Cardiologia de Intervenção 24/24h, todos os dias do ano, onde uma equipa altamente especializada realiza o tratamento descrito acima.
Para a doença coronária estável, que muitas vezes se caracteriza pelas queixas da chamada “angina de peito”, quer a terapêutica médica farmacológica, quer a angioplastia estão indicadas, sendo que embora ainda controverso, a segunda alternativa seja a de eleição se os/as doentes apresentam sintomas importantes ou sinais de sofrimento do miocárdio, através de exames entretanto realizados, e que definem a chamada “isquemia miocárdica”.
Se é verdade, como atrás ficou documentado, a extraordinária evolução do tratamento dos doentes coronários, existem no entanto as chamadas “regras de ouro”, para ajudar a diminuir a incidência e prevalência desta doença.
A atenção e o controlo – o mais eficazes possível – dos fatores de risco para doença das coronárias, como a hipertensão arterial, a diabetes, os hábitos tabágicos, o colesterol elevado, o stress, e o conhecimento adequado de uma história familiar próxima desta doença, bem como a instituição de uma vida ativa (mas o mais tranquila e saudável possível) e a prática de exercício físico adequado, são decisivos para que continuemos, todos, a aumentar o sucesso na abordagem desta doença e, em consequência disso, a atingir cada vez melhores resultados quanto à melhoria da mortalidade mas também da morbilidade desta doença.