Entrevista a Marina Vitorino
Vencedora do Prémio “Melhor Caso Clínico”
- “Uso de Pembrolizumab na doença renal em estágio terminal: relato de caso com resposta completa”. Em que consiste pormenorizadamente a sua investigação?
Este trabalho trata-se de um report de um caso clínico de um doente tratado no serviço de Oncologia no nosso hospital. O doente em causa apresentava uma neoplasia urotelial (do sistema urinário) inicialmente tratada de forma local (ressecção do tumor) mas posteriormente com uma evolução desfavorável com metastização pulmonar e com uma evolução da doença renal crónica necessitando de hemodiálise. Foi tratado, em primeira linha, com quimioterapia, apresentando no entanto progressão de doença com agravamento das metástases conhecidas. A escolha do tratamento de segunda linha com imunoterapia (Pembrolizumab) foi controverso, dada a ausência de estudos deste tratamento em doentes com doença renal crónica moderada ou grave. Apesar disso, este doente apresentou uma resposta completa ao fim de 13 meses de tratamento, com desaparecimento de todas as lesões pulmonares. Infelizmente, o doente acabou por falecer por uma intercorrência infeciosa não relacionada com a sua doença oncológica.
- Quando (ano) é que iniciou esta investigação e porquê (motivos concretos)?
O caso clínico em questão refere-se ao tratamento usado entre 2019-2020. A publicação do caso aconteceu em 2022.
- A investigação está finalizada? Caso não esteja, o que falta concluir?
Está finalizado.
- Quais as “guidelines” que a motivaram a enveredar por este campo de investigação?
A doença renal crónica trata-se de uma comorbilidade limitante na gestão do/a doente oncológico/a. A escolha do tratamento acaba por ser limitada por haver múltiplos fármacos que são contra-indicados na presença de lesão renal. Além disso, a maioria dos ensaios clínicos, que testam a eficácia e segurança de fármacos, acaba por excluir os/as doentes com doença renal moderada ou grave, não havendo, assim, evidência científica para o seu uso nestes/as doentes. Desta forma, o relato de casos clínicos ou séries de casos acaba por ser uma forma de partilha de conhecimento e experiência entre os centros que tratam estes/as doentes.
- Que constrangimentos e/ou obstáculos foi encontrando pelo caminho?
O principal obstáculo na gestão deste caso foi a escassa evidência científica sobre o uso de fármacos oncodirigidos em doentes com doença renal terminal.
- Quais as mais-valias e/ou vantagens deste projeto de investigação aplicado ao HFF e, agora, à ULS Amadora/Sintra?
A principal mais-valia deste caso clínico é a partilha entre pares de um caso de sucesso com um tratamento de imunoterapia (Pembrolizumab) num doente com uma comorbilidade limitante.
- Esta sua investigação está ainda no campo teórico ou já tem aplicabilidade prática?
Ao tratar-se de um caso clínico, relata a experiência de um caso de sucesso com um tratamento inovador, ainda não aprovado na altura, e que demonstrou ter um perfil de segurança mesmo num doente sob hemodiálise. Dada a ausência de casos descritos como este, à data da publicação, o caso acabou por ser um acrescento em termos científicos à literatura existente.
- A sua investigação tem “colhido” frutos internacionalmente? Se sim, quais?
O caso clínico foi publicado na revista internacional “Case Reports in Oncology”.
- Que público-alvo irá beneficiar, com mais abrangência, desta sua investigação?
O caso é de especial interesse para centros oncológicos, uma vez que relata o sucesso de um tratamento numa população (doença renal crónica terminal) com uma escolha de tratamentos limitada.
- Projetos futuros, ou já em curso, alinhados com esta sua investigação?
Será equacionado o levantamento a nível nacional de casos semelhantes ao caso reportado.
- Trata-se de uma investigação “a solo” ou trabalha integrada numa equipa?
O caso foi escrito com o apoio da Dra. Catarina Santos, médica assistente do doente.
- Há trabalhos de investigação na mesma linha de estudo e/ou campo de atuação no estrangeiro? Se sim, onde?
À data da publicação deste caso clínico, vários casos foram publicados com descrição do uso de agentes de imunoterapia noutro tipo de neoplasias.
- Vencer o Prémio “Melhor Caso Clínico” do HFF trouxe-lhe novas realidades de vida? Quais? Como tem lidado com as mesmas?
Vencer este prémio permitiu a divulgação de um caso de sucesso com toda a comunidade do hospital. Este tipo de iniciativa acaba por ser um incentivo à realização de mais trabalhos e colaborações com outros serviços do nosso hospital.
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Dra. Marina Vitorino