Na passada quinta-feira decorreu mais uma Sessão Clínica do Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca (HFF) e teve como tema “HPV – Abordagem multidisciplinar”. A infeção pelo HPV é extremamente frequente, sendo a infeção sexualmente transmissível mais comum. Muitas das infeções são assintomáticas e podem associar-se a múltiplas manifestações, pelo que se quer uma abordagem multidisciplinar.
Nesse sentido a sessão esteve a cargo dos/das médicos/as Patrícia Amaral, Mariana Miranda e Vanessa Santos – do Serviço de Ginecologia -, Nuno Mendes e Liliana Carvalho – do Serviço de Otorrinolaringologia -, Filipe Gaboleiro e Alberto Silva – do Serviço de Urologia – e Sofia Bragança – do Serviço Gastrenterologia.
O HPV (vírus do papiloma humano) é o agente infecioso sexualmente transmissível mais comum. Estima-se que 80% da população tenha tido um episódio de infeção durante a sua vida, sendo comum a resolução espontânea.
Os vários genótipos de HPV têm diferentes potenciais de transformação maligna, dividindo-se em baixo e alto risco. Os de baixo risco são responsáveis por condilomas anogenitais, papilomas laríngeos, verrugas dérmicas e infeções subclínicas e os de alto risco são responsáveis pelas lesões pré-malignas e malignas. O vírus tem um espetro de manifestações muito alargado, sendo o foco desta sessão nas manifestações do trato genital masculino e feminino, trato gastro-intestinal e respiratório superior.
No trato genital masculino, existe uma multiplicidade de manifestações, sendo o seu tratamento desafiante. Nos doentes com parceiro infetado por HPV, não existe evidência científica que suporte a notificação ou referenciação para avaliação clínica. O cancro do pénis é uma neoplasia rara, estando o HPV implicado em cerca de 50% dos casos.
No trato gastro-intestinal, as manifestações mais frequentes são os condilomas acuminados, que persistindo, estão associados a risco acrescido de lesões precursoras e cancro anal. É importante frisar o rastreio com citologia do canal anal recomendada em doentes com lesões condilomatosas, imunodeprimidos e em mulheres com antecedentes de lesão de alto grau ou neoplasia do trato genital inferior.
No aparelho respiratório superior, o HPV é responsável por papilomas benignos das mucosas, papilomatose laríngea recorrente e carcinoma pavimento-celular (CPC) da cabeça e pescoço. Nestes tumores, tem havido uma incidência crescente de cancro da orofaringe, sendo que o HPV está implicado em 60 a 70% dos casos. A maioria dos/das doentes apresentam-se com adenopatias cervicais, sem sintomas relacionados com tumor primário. Os tumores HPV positivos apresentam melhor prognóstico.
A prevenção assenta em 3 pilares: modificação dos comportamentos sexuais, rastreios e vacinação.
Em relação ao rastreio do cancro do colo do útero, passamos de um paradigma em que o rastreio (organizado e oportunista) era baseado em colheita de citologia cervical, para o rastreio com o teste de HPV de 5 em 5 anos entre os 25 e os 60 anos.
A vacinação, desde 2019, está recomendada em rapazes e raparigas a partir dos 10 anos de idade com a administração da vacina nonavalente. A vacinação está ainda recomendada em homens e mulheres até aos 45 anos, sobretudo em grupos de risco. Esta também pode ser utilizada como prevenção secundária, nomeadamente em mulheres com lesões cervicais pré-malignas tratadas ou não suscetíveis de tratamento.