O novo ano letivo está a chegar. Por todo o país, creches, jardins-de-infância e escolas vivem a azáfama dos últimos preparativos: mochilas prontas, materiais organizados, salas que ganham cor à espera dos primeiros dias. Mas há um lugar onde o regresso às aulas tem outro significado. Num hospital, a “sala de aula” é um quarto de internamento, e os “alunos” são crianças e jovens a enfrentar, muitas vezes, os dias mais difíceis das suas vidas.
Conheça as histórias da Sofia e da Susana, duas educadoras de infância que, ao longo de vários anos, acompanham crianças e jovens internados no Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca, integrado na ULS Amadora/Sintra.
Olá! Nós somos a Sofia e a Susana. Somos educadoras de infância no Serviço de Internamento de Pediatria do Hospital Fernando Fonseca — a Sofia há 30 anos e a Susana há 23. Se há algo que estas décadas nos ensinaram, é que as crianças têm o grande poder de nos ensinar a olhar para a doença de uma forma mais leve. Elas são o verdadeiro motor do nosso trabalho.
Aqui, a nossa sala de atividades é o centro de tudo. Nunca sabemos quem vamos conhecer hoje. Cada manhã traz o desafio de braços abertos: novas histórias que entram, outras que ganham a tão esperada alta. Num contexto onde as rotinas clínicas exigem uma enorme capacidade de adaptação, o nosso papel é trabalhar em sintonia com os restantes profissionais para devolver a estas crianças e jovens o direito de serem apenas crianças. Como? Através do brincar.
No internamento, a fragilidade bate à porta. Lidamos com limitações, medos e necessidades especiais. Por isso, a nossa sala de atividades foi desenhada para ser um porto seguro — um local acolhedor de partilha para os pequenos e para as suas famílias. É ali que trocamos os ecrãs dos telemóveis pelo calor de uma história lida, e onde as propostas se moldam ao que cada um mais precisa no momento: desenhar, pintar, jogar, conversar ou, tantas vezes, apenas um colo silencioso.
Planear os dias neste turbilhão é uma arte que dominamos com base na experiência, no conhecimento e na intuição. Trabalhamos em estreita parceria com a equipa multidisciplinar, pertencemos ao grupo de humanização do serviço e apoiamos diversas iniciativas com os nossos parceiros, porque o bem-estar e o sorriso de cada criança/jovem são construídos a muitas mãos. Mas o nosso trabalho vai além do brincar. Nós cuidamos do futuro. Promovemos hábitos de vida saudáveis — como a importância da higiene, da alimentação e do sono — e capacitamos os pais, partilhando estratégias de linguagem e brincadeiras que estimulam o desenvolvimento dos seus filhos, mesmo fora do hospital.
Nestas nossas caminhadas cruzadas, guardamos malas cheias de memórias que o tempo não apaga. A Susana nunca esquecerá o momento mais feliz da sua carreira, quando entregou uma bebé nos braços da sua nova família adotiva. A Sofia recorda com muito carinho a voz daquela criança que, mal ouvia os seus passos a chegar ao corredor, chamava pelo quarto: “Mãe?”.
São estes pedaços de vida que nos dão “combustível”. Cada sorriso arrancado e cada brincadeira partilhada são momentos especiais. Damos o nosso melhor todos os dias para minimizar o sofrimento do internamento. Queremos que esta passagem pelo hospital fique na memória deles não pelo ambiente clínico, mas pela bonita certeza de que, mesmo doentes, as crianças nunca deixam de brincar, de rir e de sonhar — e que tanto elas como as suas famílias tenham sempre a certeza de que podem contar com os profissionais deste serviço.