Reabilitação na área da Incontinência Urinária Masculina em contexto pós prostatectomia

26 Novembro, 2021

Movember é uma campanha de consciencialização realizada anualmente no mês de novembro dirigida à sociedade e, em especial, aos homens, para alertar a respeito de doenças masculinas, com especial ênfase na prevenção e no diagnóstico precoce do cancro de próstata. O cancro da próstata é atualmente um dos principais cancros que afetam a população masculina, sendo o de maior incidência e o segundo em mortalidade.

Uma das formas de tratamento deste tipo de cancro é a realização de uma Prostatectomia que consiste na remoção cirúrgica de parte ou da totalidade da próstata. A prostatectomia tem um baixo risco de complicações graves, no entanto, à semelhança de qualquer cirurgia, possui alguns riscos que devem ser levados em consideração.

Uma das consequências diretas deste tipo de intervenção cirúrgica pode ser a incontinência urinária. Sendo, no entanto, reversível com tratamentos adequados visando a melhoria significativa na qualidade de vida dos doentes.

No Serviço de Medicina Física e de Reabilitação do Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca (HFF) há uma equipa dedica a este tipo de tratamentos: a Equipa de Reabilitação do Pavimento Pélvico (RPP). Foi criada em 2002 e conta com a uma médica Fisiatra, quatro Fisioterapeutas e de uma Técnica Auxiliar de Fisioterapia.

O pavimento pélvico suporta vários órgãos que existem na nossa cavidade abdominal. Esse pavimento é composto por um conjunto de músculos.

Os órgãos pélvicos são a bexiga e o intestino nos homens e a bexiga, o intestino e o útero nas mulheres. O grande objetivo da reabilitação do pavimento pélvico, assim, é o fortalecimento dos músculos que o constituem.

Ao longo dos anos a equipa de RPP do HFF tem desenvolvido a sua atividade assistencial em diferentes áreas: incontinência urinária (IU) feminina e masculina, prolapso de órgãos pélvicos, proctologia (disfunções defecatórias, incontinência anal, síndrome pós reconstrução trânsito intestinal) e complicações no pós-parto (laceração perineal, incontinência, dor pélvica). Esta equipa tem vindo a deparar-se com um elevado número de solicitações para reabilitação, não só de disfunções no sexo feminino, como também no sexo masculino, sendo que a IU consequente às prostatectomias tem um peso considerável no número total de consultas e na necessidade de tratamento.

Fazendo um le.vantamento do número de casos observados em consulta entre 2017 e 2020, obtém-se uma amostra de 532 doentes, dos quais, 451 (85%) correspondem ao sexo feminino e 81 (15%) ao sexo masculino. Destes últimos, 43 (53%) apresentavam IU pós-prostatectomia.

Embora esta sintomatologia seja maioritariamente transitória e de recuperação espontânea, em cerca de 16 % dos casos a incontinência continua presente um ano após a cirurgia, podendo beneficiar com a intervenção da fisioterapia.

No HFF, cada doente é referenciado à consulta de fisiatria pelo médico que o acompanha (Urologista ou médico de Medicina Geral e Familiar). Nesta consulta é feita a sua avaliação inicial para integrar, caso tenha indicação, o programa de reabilitação do pavimento pélvico, que inicialmente é individual, podendo depois progredir para tratamentos em classe (reabilitação em grupo).

O tratamento da IU pós prostatectomia tem como objetivos melhorar a propriocepção do períneo, aumentar a força e o tónus muscular e favorecer a coordenação. Para se atingir estes objetivos são utilizadas técnicas manuais de reeducação pélvica, incluindo o ensino da contração muscular e treino de automatismos, podendo em algumas situações recorrer-se à estimulação elétrica e ao biofeedback. Todo este processo implica respostas fisiológicas musculares e da inervação pélvica que demoram no mínimo três a quatro meses.

Em geral, a abordagem conservadora é aconselhada como a principal estratégia de tratamento da incontinência urinária. A reabilitação do pavimento pélvico é considerada um método efetivo e seguro de tratamento desta disfunção após uma prostatectomia, melhorando assim a qualidade de vida dos doentes.

Desta forma a equipa de RPP do HFF pretende alertar que se tem presente, ou conhece alguém, com esta patologia em contexto pós prostatectomia, há solução para o mesmo. Frequentemente – por desconhecimento e até por vergonha – muitos doentes acabam por não procurar ajuda nesse sentido.