A Unidade Local de Saúde Amadora/Sintra identificou, no Hospital Fernando Fonseca, mais de 500 mulheres vítimas de Mutilação Genital Feminina (MGF) nos últimos 10 anos, entre setembro de 2015 e dezembro de 2025. A maioria dos casos diz respeito a mulheres oriundas da Guiné-Bissau, Guiné-Conacri, Senegal, Gâmbia, Nigéria, Gana e Congo, que foram submetidas a esta prática violenta sobretudo durante a infância e adolescência.
Os dados revelam ainda que a maioria das mulheres identificadas se encontrava em idade fértil. No mesmo período, nasceram mais de 240 meninas filhas de mulheres submetidas a MGF, o que reforça a importância da sensibilização e capacitação dos profissionais de saúde para a identificação precoce e a sinalização destas situações, com vista à prevenção da prática nas gerações futuras.
A experiência da ULS Amadora/Sintra demonstra que a abordagem junto das utentes vítimas de MGF deve ser culturalmente sensível, empática e isenta de juízos de valor. “Não é fácil, choca-nos, principalmente quando percebemos que há uma intenção em continuar a prática, mas é importante não julgar para não perder a confiança da mulher perante nós.” – refere Khatidja Amirali, enfermeira especialista e membro do Grupo de Trabalho Responsável pela Mutilação Genital Feminina no HFF. De acordo com esta profissional de Saúde, “é fundamental que o profissional de saúde compreenda o contexto sociocultural subjacente à prática — muitas vezes associada à aceitação social da mulher na comunidade de origem —, sem deixar de informar sobre o enquadramento legal da MGF em Portugal, as suas graves consequências para a saúde física e emocional, e os direitos das meninas/futuras mulheres”.
Neste contexto, destaca-se também a importância de alertar para os períodos de maior risco, nomeadamente durante as pausas letivas, quando algumas crianças viajam para os países de origem das famílias e podem ser submetidas ao ritual sem o conhecimento ou consentimento da mãe. A articulação entre a saúde escolar e os cuidados de saúde primários assume, por isso, um papel crucial, estando a ULS Amadora/Sintra a promover ações de formação e sensibilização junto de profissionais de saúde, bem como de pessoal docente e não docente.
A MGF define-se como qualquer procedimento que envolva a remoção parcial ou total dos órgãos genitais externos femininos, ou que provoque lesões nos mesmos, por razões não médicas. Trata-se de um crime público, uma forma de maus-tratos físicos e emocionais e de violação dos direitos humanos.
Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (2009), estima-se que entre 100 e 140 milhões de meninas e mulheres em todo o mundo tenham sido submetidas a MGF, e que cerca de três milhões de meninas estejam, todos os anos, em risco de sofrer esta prática.
Na ULS Amadora/Sintra, a abordagem junto destas utentes pode ocorrer em qualquer contacto com os serviços de saúde, o que reforça a importância da formação contínua dos profissionais. O grupo responsável pela sinalização da MGF no Hospital Fernando Fonseca mantém ainda articulação com entidades externas com competências na prevenção e no combate a esta prática.
Contudo, a experiência demonstra que a mudança mais profunda e sustentável surge no seio das próprias comunidades. As mulheres tendem a escutar mais facilmente os seus pares — ativistas, mediadoras comunitárias e voluntárias —, o que sublinha a importância de desconstruir a MGF enquanto alegada necessidade cultural e de promover o empoderamento das mulheres como agentes de mudança.