Sabia que no Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca (HFF) existe um Laboratório de Neurofisiologia e Sono? Sim, é verdade!
Este laboratório dedica-se também, entre outras competências, ao estudo das patologias associadas ao sono. É constituído por uma equipa multidisciplinar de especialistas do Serviço de Neurologia (médicos/as, técnicos superiores de diagnóstico e terapêutica na área de Neurofisiologia e assistentes operacionais).
Em 2022 esta equipa especializada do HFF realizou vários estudos do sono, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida dos/as nossos/as utentes que sofrem com estes distúrbios e que podem ter muitas implicações no seu dia a dia. No total foram realizadas 1057 polissonografias, na maioria nível 2 (em regime de ambulatório) e 15 de nível 1 (feitas em laboratório e com registo de vídeo).
A polissonografia é um exame não invasivo que mede a atividade respiratória, muscular e cerebral (além de outros parâmetros) durante o sono. As informações são recolhidas por sensores espalhados pelo corpo e analisadas por computadores que transformam os dados em padrões que descrevem em detalhes como é o descanso do indivíduo.
Neste Dia Mundial do Sono que se assinala hoje, dia 17 de março, fomos falar com esta equipa para desmistificar algumas questões e curiosidades sobre o sono. Assim, aqui partilhamos consigo oito perguntas e respostas. Não deixe de ler!
Os impactos de uma só noite mal dormida, quer seja por privação voluntária de sono ou por uma insónia aguda em contexto de estímulos externos (como por exemplo: ruído, substâncias excitantes como a cafeína, estímulo emocional intenso), não terá um impacto significativo por si só na saúde das pessoas, à exceção da predisposição para ocorrência de acidentes, nomeadamente de viação. Porém, a privação crónica de sono poderá ter efeitos a longo prazo tanto a nível da saúde mental como física. Do ponto de vista mental, há impacto no humor, predispondo para síndromes depressivos, e nas capacidades cognitivas, nomeadamente na memória e na atenção. Na saúde física também existem repercussões, sobretudo na saúde cardiovascular, estando bem estabelecido o risco aumentado de Hipertensão arterial, Obesidade, Diabetes, Acidente Vascular Cerebral e Enfarte Agudo do Miocárdio.
Sim, é possível compensar o sono. Podemos ver isso quando nos privamos de sono durante uma semana de trabalho, e compensamos as horas não dormidas ao fim de semana.
No entanto, se esse sono não for compensado, falamos em privação crónica de sono e os seus efeitos podem sentir-se na saúde mental e física como abordado na questão anterior.
Na realidade cada pessoa tem necessidades de sono muito próprias. Esta necessidade varia de pessoa para pessoa, mas também varia ao longo da vida. Sabemos que os recém nascidos em média dormem 16 horas por dia, um adulto em média 7-8 horas e um idoso 6-7 horas. É claro que existem extremos da normalidade, os denominados “short-sleepers” e os “long sleepers”. Assim, tendo em conta o perfil pessoal e a faixa etária temos um tempo ótimo de sono para cada indivíduo. O aumento das necessidades de sono em relação ao habitual é expectável para um determinado indivíduo ou a hipersonolência diurna, devem-nos fazer pensar que estamos perante uma patologia do sono, nomeadamente uma hipersónia. Tal deverá ser abordado por um profissional de saúde, nomeadamente, com experiência no diagnóstico e tratamento destas doenças.
Parece existir uma relação estreita entre o sono e o sistema imunitário. É sabido que a privação de sono promove no nosso organismo um estado pró-inflamatório com aumento de marcadores inflamatórios, diminuição da resposta à imune pós vacinal e aumento da suscetibilidade a infeções. Por outro lado, o ataque imunológico a certas localizações no sistema nervoso central, pode provocar hipersónias, nomeadamente, quando existe a destruição imuno-mediada do hipotálamo lateral, que está na base do desenvolvimento da Narcolepsia, uma doença caracterizada por Hipersonolência diurna.
Existem vários hábitos, denominados de medidas de higiene do sono que melhoram a qualidade do sono, tais como:
– Evitar bebidas excitantes como o café após a hora do almoço;
– Não usar telemóvel à noite antes de ir para a cama;
– Não usar televisão no quarto;
– Não fazer uma refeição principal antes de ir dormir;
– Reduzir a luminosidade do ambiente uma hora antes de ir para a cama;
– Não fazer exercício antes de ir para a cama;
– Não tomar banho (sobretudo de água muito quente) antes de ir para a cama;
– Não ter relógio no quarto.
O exercício físico é importante para melhorar a nossa saúde física e mental, e tal repercutir-se-á indireta e positivamente no sono e portanto deve ser promovido. No entanto, fazer exercício antes de ir para cama (1 a 2 horas), vai aumentar a latência do sono, isto é, o tempo entre o momento em que a pessoa se deita e fecha os olhos e a hora em que realmente adormece, sendo contraproducente.
Existem várias teorias sobre este estado de hipersonolência e menor ativação após as refeições. Uma das teorias relaciona-se com o aumento do tónus parassimpático (parte do sistema nervoso autónomo promotor dos mecanismos da digestão) e consequente diminuição do tónus simpático (mais ativador, mediado por neurotransmissores como a Adrenalina). Outros autores defendem o papel do aumento da insulina que, por ação indireta, aumenta a concentração da melatonina (a hormona do sono).
No envelhecimento saudável há diminuição das necessidades de sono, este torna-se mais curto, superficial e fragmentado. No entanto, com o envelhecimento, podem aparecer problemas do ritmo circadiano, como o avanço de fase do sono. Neste problema, comum na população idosa, o facto de estes se deitarem mais cedo e terem uma menor necessidade de sono, pode levar a queixas de insónia intermédia ou terminal, o que pode levar a erro no diagnóstico, uma vez que na realidade dormem o número de horas ajustado à idade. O tratamento nestes casos é cronobiótico (acertar o sono) e não aumentar, artificialmente, a quantidade de sono com sedativos.