“26 Anos, 26 Testemunhos” – Madalena Barros

5 Novembro, 2021

Madalena Barros é a “fundadora” que se segue em mais uma partilha de vida no âmbito da rúbrica “26 anos, 26 Testemunhos” – uma singela e sentida homenagem do Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca (HFF) a todos quantos dedicaram a sua vida a esta instituição. A Assistente Social do HFF ficou surpreendida com o pedido, e deixa, na primeira pessoa, uma partilha muito íntima de alguns momentos que mais a marcaram nos últimos 26 anos.

“Em boa verdade, há muito tempo, que não revisitava o passado. Habituamo-nos a viver muitas vezes em modo de piloto-automático. É num pedido tão simples como dar um testemunho desta caminhada feita ao longo de 26 anos, que as nossas estruturas se abalam e estremecem: nesse momento, parei! Foi com alguma incredibilidade que pensei… Já passaram 26 anos!”, diz Madalena Barros.

26 anos de HFF são quase tantos quantos os anos de vida que tinha quando abraçou o desafio de vir trabalhar para o HFF: “De coração acelerado e pernas bambas, parei em frente deste enorme edifício pela primeira vez, a tentar serenar o nervosismo, o entusiasmo e o medo. Apenas um obstáculo se interpunha entre a expectativa e a realidade de vir aqui trabalhar. De mãos cerradas, e a certeza de que a vida só acontece nos intervalos do medo, avancei! Um passo bastou para que a porta de vidro automático abrisse e me convidasse a entrar. 26 anos da minha vida, estavam prestes a acontecer!”, partilha.

Neste exercício de reavivar o passado, Madalena Barros diz que uma das primeiras recordações foi o silêncio e o cheiro a tinta fresca: “Um silêncio absoluto e uma imensidão de vazio ‘casavam’ na perfeição, onde é receção principal. O cheiro a tinta fresca e a novo apuravam-me os sentidos – ali estava eu, num Hospital a estrear, numa vida praticamente a estrear também”, diz-nos.

Foram estes os seus primeiros passos em direção à autonomia financeira, à possibilidade de realização profissional e consequentemente à pessoal. Madalena Barros tem em si um sentido de missão, inerente à sua profissão de Assistente Social: “Naquele momento, era apenas guiada pelos sonhos, acalentando o sublime desejo de, no xadrez da vida, dos que comigo se cruzassem nesta casa, por meio da intervenção profissional, recordassem um dia que tinha sido aqui, neste hospital, num momento específico da vida, que a mesma tinha mudado, avocando um rumo mais equitativo, com maior qualidade e dignidade”, recorda. “Da Cirurgia à Medicina, os Serviços de urgências, a Pediatria e Obstetrícia, passei um pouco por todos eles, onde deixei muito de mim, trazendo também grandes ensinamentos”, garante.

“Hoje, sentada à secretária, a exorcizar lembranças, histórias e situações, dou conta das centenas, se não milhares que já passaram por mim. Não me recordo em pormenor de todas, mas consigo lembrar-me de bastante mais do que imaginava”, admite. “Por mim passaram situações no início da vida, outras tantas no seu fim. Outras ainda a meio caminho, interrompidas abruptamente pela doença, por um acidente ou quem sabe, apenas pela má sorte…”, recorda.

Alguns dos episódios que Madalena Barros aceitou partilhar connosco nesta rúbrica são de ternura; outros, no entanto, são de dor, alguns de sofrimento incomensurável: “Foi aqui, nesta casa, e na minha intervenção com Assistente Social, que contemplei a face do amor, quando vi os olhos emocionados de uma mãe ao abraçar o filho recém-nascido pela primeira vez, ou a ternura do último beijo dado à companheira de toda uma vida, que jaz ainda morna no leito de uma cama de enfermaria. Aprendi que a vida e a saúde são dons preciosos e a estes só se dá valor, quando se está perto de os perder”.

A viagem pelas memórias de Madalena Barros é de grande crueza e humanidade: “Confrontei o sofrimento nos rostos deformados da dor pela perda dum filho, e dos sonhos sonhados para ele. Dos rostos sem expressão, de quem renuncia um recém-nascido, por preconceito, por pobreza, ou por um deslize da vida. Nos rostos fechados e descrentes, de quem perde amores e com eles, a esperança, a felicidade, e a vontade de continuar. Dos rostos marcados pela idade e a vida, em braços caídos e mãos aberta em cima da cama, cheias de nada e à espera de coisa alguma… Ou nos olhos duma criança que, em vez de estrelas, vemos vazio, amargura e solidão”.

“Aprendi a engolir lágrimas e a esbanjar sorrisos. A ser assertiva sempre que acredito que o caminho se faz numa direção e não noutra”, diz-nos Madalena Barros.

Por vezes, o trabalho de Assistente Social é quase uma arte divinatória. Madalena Barros explica: “Foi aqui, nesta casa, e na minha intervenção com Assistente Social, que me apercebi, que o que não se diz, e por vezes não se ouve, é tão ou mais importante do que se fala na rapidez de uma conversa. Que dar a mão a um estranho não me desvirtua, nem como Assistente Social, nem como pessoa, e esse gesto tão simples pode ser e ter a importância de um salva-vidas. Existem momentos em que as palavras não são importantes, e outros em que não existem palavras suficientes”, diz-nos.

E prossegue a partilha: “Apesar de trabalhar num Hospital, também é possível rir – existem histórias hilariantes e que finais felizes são mais comuns do que imaginamos. Mas existem causas que não vencemos, e o utente, estando lucido e orientado, é soberano em relação ao que pretende para si e para a sua vida, por muito que eu não concorde. A frustração faz parte do meu dia-a-dia e tenho de saber viver com ela, sem me danificar”, explica-nos.

O HFF é mais do que um trabalho para Madalena Barros: “Aqui, neste hospital, abracei os meus filhos pela primeira vez, e despedi-me pela última vez do meu pai. Aqui, já fui utente, já fui familiar; já me deram a mão e já me abraçaram. Aqui, fiz amigos para a vida, tenho colegas que muito respeito e admiro; conheci profissionais de outras áreas que ficarão para sempre tatuados no meu peito e utentes que nunca esquecerei. Nestes 26 anos, consolidei uma intervenção social assente em bases científicas, orientada por significados humanistas e apoiada em princípios éticos, procurando, em cada intervenção individual com o utente, contribuir para a sua dignificação, promovendo a defesa dos seus direitos, da democracia, da justiça social, e da igualdade, desejando, com toda a humildade, contribuir para que o HFF cumpra não só os seus objetivos, mas também contribua para uma sociedade melhor”.

Madalena Barros fecha este emotivo testemunho com uma mensagem particularmente tocante: “Concluo que nestes 26 anos envelheci. Mas foram estes e outros tantos momentos passados, as experiências adquiridas e as escolhas feitas, que me foram edificando na pessoa que sou hoje e que gosto de ser! Continuo a correr atrás dos sonhos – os que não alcancei e os que continuo a sonhar. Continuo a querer fazer a diferença, a ser mais e melhor. O coração ainda acelera! Digam o que disserem do HFF, para mim é muito mais que um edifício, muito mais que um singular local de trabalho. É um pouco de mim, da minha história. Da minha vida!”