“26 Anos, 26 Testemunhos” – Sónia Semião

19 Novembro, 2021

Sónia Semião, enfermeira-chefe da Unidade de Cuidados Intensivos Especiais Neonatais e Pediátricos do Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca (HFF), inicia o seu testemunho colocando um número nos anos da sua vida que dedicou à saúde pública em Portugal: são quarenta anos, celebrados em outubro. E foi também em outubro, mas de há 27 anos, que iniciou funções no HFF. De facto, Sónia Semião é dos quadros mais antigos do HFF – de acordo com os registos, integra os primeiros dez funcionários da instituição.

“Não estou cansada, estou mobilizada!”, diz-nos. Durante esta sua partilha de vida ao serviço do HFF, iremos notar que a conversa é quase sempre desviada para o futuro por Sónia Semião: “Gosto muito de trabalhar, gosto muito do que faço. O passado é importante e faz parte da minha vida, mas na realidade o importante para mim é o aqui e o agora. O mais importante é o futuro!”.

Se pudéssemos adivinhar diríamos, que esta vitalidade vem da sua especialidade – “Saúde Infantil” –, pois é através das crianças se consegue ver o futuro a desenrolar-se à frente dos nossos olhos. “Desde sempre percebi que queria desenvolver as minhas competências no âmbito da pediatria, daí ter decidido, ainda muito jovem, enveredar pela especialidade de Saúde Infantil”, partilha. Mas, como muitas vezes na vida, o destino dá muitas voltas até chegarmos ao sítio onde sempre fomos esperados. Sónia Semião iniciou a sua carreira na arena da Unidade de Cuidados Intensivos do Hospital de Santa Cruz, instituição precursora na cirurgia de transplante de coração em Portugal, e com áreas de diferenciação ligadas à cirurgia cardíaca pediátrica. Ali dedicou os primeiros 14 anos da sua carreira, intensos de experiências e aprendizagens que revolucionaram a medicina em Portugal.

“Em 1994, foi com naturalidade que senti que a vinda para o HFF me permitiria progredir a nível pessoal e de carreira, abraçando um projeto inovador que me deu a possibilidade e o privilégio de organizar do zero o serviço da instituição”, recorda Sónia Semião, referindo-se ao Serviço de Cardiologia e Unidade de Cuidados Intensivos Cardíacos, que liderou, como enfermeira-chefe, durante 18 anos. “No entanto, tive sempre uma ‘cabeça pediátrica’ e essa formação ajudou-me muito com os adultos. Temos sempre que ver mais para além da cama e do doente que temos ao nosso cuidado no seu momento de maior fragilidade. Envolver a família é fundamental, e essa abordagem, que é usual na pediatria, foi um dos aspetos em que o HFF foi pioneiro”.

O “coração” de Sónia Semião durante esse longo período de 18 anos no Serviço de Cardiologia do HFF nunca deixou de “bater” pelas crianças. Em regime de voluntariado, Sónia Semião estruturou um projeto de literacia em saúde cardiovascular direcionado para as crianças, o “Coração Tic-Tac”, no âmbito da Associação “Bate-Bate Coração”. Este projeto, que decorreu fundamentalmente no concelho da Amadora, no qual está localizado o HFF, teve como objetivo introduzir precocemente conceitos relacionados com o ritmo cardíaco, com o coração saudável e os benefícios da avaliação periódica do ritmo cardíaco com vista a um maior entendimento e até diagnóstico precoce, no futuro, em idade adulta, da doença cardíaca e das arritmias.

Sempre ligada à infância, foi com naturalidade que, há oito anos, voltou ao ambiente pediátrico, com o desafio de chefiar os Cuidados Intensivos Neonatais e Pediátricos. Para além da infância, a gestão de pessoas é uma das suas paixões. “O meu percurso profissional neste hospital esteve sempre ligado à gestão. Integrei duas Direções de Enfermagem, a primeira em 1994 e depois em 2007, e ao longo dos últimos 27 anos integrei várias comissões e grupos de trabalho”, regista.

“Enquanto enfermeira-gestora do HFF, tive sempre e continuo a ter três grandes preocupações permanentes”, revela Sónia Semião, partilhando a sua filosofia tripartida de gestão: “A primeira preocupação tem a ver com o contributo ativo para o cumprimento dos objetivos globais da instituição; a segunda está mais centrada no serviço que chefio, criando as condições para que se prestem serviços de saúde de qualidade que garantam uma satisfação dos nossos doentes e das suas famílias; o terceiro vetor é contribuir para o bem-estar das pessoas que trabalham sob a minha dependência funcional”, sintetiza.

“Giro e sempre geri equipas enormes – de enfermeiros e auxiliares. É quase uma obsessão minha conhecer a minha equipa, para identificar o que há de melhor em cada uma das pessoas que a compõem, para sublimar o máximo das suas potencialidades, ajudando-os a atingir os seus objetivos profissionais, mas também os objetivos pessoais. É a minha convicção que pessoas motivadas garantem cuidados de saúde de qualidade”, afirma.

“As pessoas que cuidam também têm de ser cuidadas”, diz Sónia Semião sem rodeios. E a pandemia veio sublimar essa necessidade de maior apoio. “Durante a pandemia, preparámo-nos para o pior, para um cenário de catástrofe na Neonatologia e Pediatria. Não minto: houve muito medo de esta pandemia poder ter como grupo de risco a infância e a primeira infância, como na pneumónica, há cem anos”, recorda.

Esse cenário não se confirmou e trouxe aspetos muito positivos, admite Sónia Semião. “Destaco a solidariedade, a capacidade de olharmos uns pelos outros e o foco na humanização dos cuidados de saúde. Percebemos na pele como é importante a humanização dos cuidados, o carinho e o amor na abordagem ao doente e à doença.”

O afeto é, de facto, uma dimensão muito importante no percurso profissional de Sónia Semião no HFF ao longo dos últimos 27 anos. Basta encaminharmo-nos para o seu gabinete para saltar à vista a dimensão humanista da enfermeira-chefe da Unidade de Cuidados Intensivos Especiais Neonatais e Pediátricos do HFF. À porta, um aviso: “Não se esqueça de sorrir”. Lá dentro, as paredes forradas de registos fotográficos de colegas – e de doentes também.

“Tenho tido muito retorno de afetos por parte de muitos que, ao longo dos anos, trabalharam e ainda trabalham comigo”, admite, não sem antes deixar claro: “O meu futuro é aqui, com muitos projetos e muitos afetos – para os meninos, para os pais dos meninos, para os profissionais de saúde deste serviço e do Hospital.”