«Abraçar a Criança Migrante» realça os desafios da multiculturalidade na prática clínica

15 Novembro, 2022

Paula Correia, Ana Ventura, Teresa Ferreira e Francisca Costa são pediatras do Departamento de Pediatria do Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca (HFF) e também as organizadoras do Curso: «Abraçar a Criança Migrante», que recentemente, juntou cerca de 30 profissionais de saúde, do hospital e de outras instituições de saúde.

O curso abordou diversos temas, tais como as Doenças Infeciosas, Doenças Hematológicas, Défices Nutricionais, Rastreio do migrante, Vacinação e Multiculturalidade na prática clínica.

Na edição deste ano, as profissionais do HFF apresentaram o: «Protocolo de Rastreio da Criança Migrante», cujo principal objetivo é auxiliar as/os profissionais a rastrear as principais doenças que podem ocorrer na criança migrante, nomeadamente doenças hematológicas, infecciosas e as relacionadas com carências nutricionais.

A iniciativa foi ao encontro do constante aumento de estrangeiro/as em Portugal e à necessidade dos/as profissionais de saúde se adaptarem a essa realidade. Segundo a Comissão Organizadora: «Ao longo das últimas décadas, a população estrangeira residente em Portugal tem vindo a aumentar, registando-se um número crescente de imigrações nos últimos anos. Também na nossa área isso aconteceu. Tendo também ocorrido uma mudança dos países de origem desses imigrantes. Se antes provinham essencialmente dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, nos últimos anos, é o Brasil o país de onde a maioria dos migrantes é originária

O curso “Abraçar a Criança Migrante” deu especial relevância às questões da multiculturalidade na prática clínica, o que constitui um desafio para os/as profissionais de saúde que tratam crianças migrantes.

Ana Ventura, Francisca Costa, Paula Correia, Teresa Ferreira que no HFF, dinamizam consultas, com enfoque particular nas necessidades dos migrantes mais novos, afirmam que: «As crianças migrantes de países de baixos recursos socioeconómicos apresentam-se em situação de especial vulnerabilidade, já que todos os problemas existentes no seu país de origem tendem a repetir-se no nosso país.» E acrescentam ainda que: «Estas crianças sofrem as mesmas doenças que as outras crianças do país de acolhimento e outras específicas do país de origem. Acresce ainda uma maior dificuldade das suas famílias no acesso aos cudados de saúde, na comunicação com os profissionais de saúde, na compreensão e aceitação das abordagens diagnósticas e terapêuticas

De acordo com a experiência das organizadoras do curso, «estas crianças são habitualmente submetidas a situações de grande stress emocional, desde maus-tratos, carências nutricionais, práticas culturais como a mutilação genital feminina, rotas de migração com múltiplas carências, até ao caso extremo dos refugiados.»

Segundo Paula Correia, Ana Ventura, Teresa Ferreira e Francisca Costa: «é necessário formar, motivar e preparar os profissionais de saúde para lidar o melhor possível com estes desafios da multiculturalidade.  E concluíram lançando o repto: «Cabe a todos os profissionais de saúde identificar as situações de risco, bem como fazer o rastreio de determinadas patologias que, ao serem identificadas em fase precoce, permitem benefícios, tanto na saúde individual como coletiva. »