Diário da Primeira Linha no combate à COVID-19

11 Fevereiro, 2021

A nossa colega Suse Antunes, enfermeira em Cuidados Intensivos, partilhou um pouco do seu dia-a-dia de trabalho no Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca (HFF). Num conjunto de posts publicados nas redes sociais do HFF (Facebook e Instagram), dá-nos uma perspetiva sobre a pressão, as derrotas e as vitórias sentidas diariamente no combate à COVID-19.

Não deixe de ler este testemunho.

Regressaremos brevemente com mais testemunhos dos profissionais da Primeira Linha do HFF.

1| PRIMEIRA LINHA

Suse Antunes, 30 anos, é mãe de dois filhos muito pequenos – uma menina de dois e um menino de quatro anos -, e é enfermeira há seis anos do Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca (HFF). Presta serviço nas Unidades de Cuidados Intensivos dedicadas à COVID-19, tendo recebido, a 19 de março de 2020, o primeiro caso de infeção pelo novo coronavírus do nosso Hospital. Frequenta um Mestrado em “Cuidados a Doentes Críticos”.

Sempre com um sorriso nos olhos (e, provavelmente, também nos lábios – conseguimo-lo adivinhar escondido atrás da máscara cirúrgica de proteção), Suse enfrenta a pandemia todos os dias, sem baixar os braços. Aqui deixamos o seu testemunho.

Se consegue ainda ver alguma luz em mim, fico mesmo feliz! Porque tenho-me sentido muito extenuada. É algo que eu nunca senti na minha vida. Porque isto, toda esta pressão, está a dar cabo de nós. Nunca me vi, nunca me imaginei nesta situação. Consegui sempre, ao longo da minha vida lidar, muito bem com situações de stress. Para chorar é preciso mesmo muito, porque sempre fui uma pessoa com grande resistência a manifestar ou revelar emoções. E, agora, do nada, sou incapaz de o controlar, e começo a chorar face a todo este sofrimento que vejo à minha volta e que é provocado por esta terrível doença que muitos insistem em desvalorizar.”

2| O MEDO

“Hoje senti-me muito mal ali dentro [da Unidade de Cuidados Intensivos (UCI)]. É um calor terrível dentro do fato.

Foi a primeira vez que me aconteceu desde o início da pandemia e tive que pedir autorização para sair da UCI. Sujeitei-me ao rigoroso e longo processo de desparamentação, para poucos minutos depois voltar a paramentar-me a rigor e voltar a entrar na Unidade. Sou honesta, senti-me no limite, pareceu-me que algo me podia acontecer.

Não saí sequer do serviço. Precisei apenas de molhar a cara, sentar-me um pouco e respirar fundo. Bebi um gole de água, porque também não podemos beber muita água e enfrentar um turno de quatro, cinco às vezes seis horas dentro dos fatos de proteção. Dentro da UCI, não podemos ir à casa-de-banho, não podemos beber água. Os EPI – Equipamentos de Proteção Individual – não devem ser desperdiçados desnecessariamente.

Arriscamos muito todos os dias. Quando um turno está complicado, quando há muitos pacientes instáveis, quando acontecem urgências, quando recebemos mais um doente e depois outro. Mas é um risco para nós. As máscaras só garantem quatro horas de proteção. Temos sempre algum receio enquanto trabalhamos. Temos receio pela nossa segurança e pelos nossos doentes. Que possamos fazer alguma coisa rápido demais, receio que possamos cometer um erro. Por cansaço, por exaustão.

3| DNR – DECISÃO DE NÃO REANIMAR

“Iniciei o meu turno às oito da manhã. Fui a primeira a entrar na Unidade de Cuidados Intensivos e recebi o turno da equipa anterior. Um dos meus colegas advertiu-me que um dos nossos pacientes, internado há mais de 30 dias, estava a piorar, e a sua evolução desde a noite anterior indicava-nos que estas seriam as suas últimas horas.

Em cima da mesa tínhamos uma DNR – “Decisão de Não Reanimar”. Isto significa que vamos continuar a fazer o que estamos a fazer, mas não vamos sujeitar o doente a mais sofrimento.

Os profissionais de saúde regem-se por princípios éticos – entre outros, os da beneficência, da não maleficência, da justiça, do respeito pela autonomia. Para não praticar a “não maleficência” não poderíamos reanimar este doente. Porque a nossa intervenção não iria reverter a situação, não contribuiria para a sua recuperação, a nossa ação apenas se traduziria em induzir mais sofrimento.

Aproximei-me do paciente. Conferi a tensão arterial: estava muito baixa. Senti-lhe a respiração muito ofegante, claramente desconfortável e pensei em aspirar secreções. Mas também aí é não é uma decisão simples: porque eu aspiro e estou a induzir esforço ao doente e é desconfortável, mas se não aspiro o doente também está em esforço e em sofrimento. Qual dos sofrimentos se escolhe? Aspirei.

Às dez da manhã morreu. No meu turno. Fazemos o possível para dar carinho aos nossos doentes nos seus últimos momentos de vida, mas não consigo deixar de pensar o quão triste é partir sem a presença dos familiares mais próximos.”

4| O QUE EU APRENDI COM A PANDEMIA

“Aprendi ao longo dos meses que todos, que todos nós, somos capazes de fazer mais, de dar mais. Quando achamos que chegámos ao nosso limite, aquele não é ainda, afinal, o nosso limite, ainda há mais para dar. Vejo isso em mim, vejo isso nos meus colegas, com quem trabalho lado-a-lado há seis anos, aqui no Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca. Damos mais, sempre mais, aos doentes, aos colegas que estão a chegar ao serviço de Cuidados Intensivos, mobilizados para este combate, e que temos que ensinar em contexto de pandemia.

Não são as condições de aprendizagem ideais, mas mesmo assim conseguimos integrar e formar, num grande trabalho de equipa, para salvar o máximo de vidas. Penso muitas vezes ao contrário, tento pôr-me nos sapatos dos meus colegas que aqui chegam pela primeira vez. Os primeiros colegas mobilizados eram enfermeiros do Bloco Operatório, habituados a cirurgias, a instrumentar, a anestesiar…  É verdade que estão habituados a lidar com doentes ventilados, mas é um contexto completamente diferente. Eu pensava muitas vezes: “Se eu fosse para uma cirurgia não saberia o que fazer, nem conheço aqueles materiais infindáveis com os quais os meus colegas trabalham, para cada especialidade…”

Adaptação, superação, solidariedade – são as características que mais estão a sobressair em nós. Estamos todos unidos. Sejam enfermeiros, sejam auxiliares, sejam médicos. Somos uma grande equipa e não vamos baixar os braços. Só assim podemos vencer a COVID-19.”

5| AMOR E LUTO NA UCI

“Vivemos isto em equipa e vivemos para os doentes; vivemos as suas vidas e as suas dores como nossas também. Na Unidade de Cuidados Intensivos (UCI) temos muito poucos doentes conscientes e orientados. Quando aqui chegam é na iminência de serem entubados e ventilados.

Mas se eu tiver um doente consciente e ao seu lado um doente que morreu, vendo-me a preparar o corpo para sair para a casa funerária, isso é chocante. Para ele, para mim

O caso que até agora mais me marcou foi de um doente que veio transferido de um Hospital da região de Lisboa. Este senhor, nos seus sessenta e poucos anos, impecável, vinha claramente cheio de medo. Olhava à sua volta, aterrorizado. Eu moro na zona de Mafra, sou saloia, e comecei a meter-me com ele, pois também é daquelas bandas. Por mero acaso, fiz três ou quatro turnos seguidos naquela unidade, e criou-se um elo. Ele conseguia perceber quem eu era, debaixo do fato, o que nem sempre é fácil. “Bom dia, sou eu outra vez, a sua vizinha, como é que está?”

Este senhor estava sempre muito preocupado com a sua esposa, que era vinte anos mais velha, também ela internada com COVID e com um prognóstico muito reservado. Era uma relação de grande amor, pelas suas palavras, pela sua preocupação constante.

Explicámos a este doente, com a linguagem mais acessível, que ele tinha sido transferido para o nosso Hospital, porque estava na iminência de ter que ser ventilado e sedado. Mas ele continuava consciente, e se eu lá ia à sua cama, para dar qualquer medicação, fazer quaisquer medições, ele perguntava-me sempre: “Senhora Enfermeira, o risco é eu ficar como este senhor que está aqui ao lado, não é?” Passado um pouco, noutra ronda, voltava a questionar-me: “Mas, senhora Enfermeira, acha que eu vou mesmo ter que ser entubado? Olhe, e aquele senhor aqui à frente, ele está melhor? Ontem vi muita movimentação ali na sua cama….”

É que na UCI não há nenhuma distração. Não há acesso a nenhuma televisão, a nenhum telemóvel. Às vezes conseguimos pôr uma música na rádio, mas até que ponto é que isso ajuda não sabemos. Este senhor tentava construir narrativas, para se ocupar mentalmente, durante a sua passagem no nosso Hospital. E via isto, todos os dias: pessoas como ele, conscientes, e no dia seguinte já entubados. Pessoas como ele a morrerem, uns a entrarem, outros a sair… E o que se pode pensar?, imaginava eu… Que eu sou o próximo, de certeza…

Ao final de quatro dias de internamento na UCI, este paciente estava muito melhor, e na iminência de ter alta para uma enfermaria. Fizemos então uma videochamada para casa. Ele tanto insistiu, tanto insistiu, desesperado por notícias da sua esposa, que a enteada, por mais forte que fosse – e foi -, teve que lhe dizer que ela tinha falecido.

(Longo silêncio)

Não têm noção. Deu dó de ver.

Nunca me vou esquecer, por mais anos que viva. Uma pessoa muito doente. Vê pessoas a morrer todos os dias ao seu lado. É tratado por pessoas mascaradas, incapaz de reconhecer rostos, como numa circunstância normal.

Este senhor fez o seu luto nos cuidados intensivos. Ninguém imagina o que isto é. E Deus queira que nenhuma das pessoas que incumpre as regras tenha algum dia que passar por uma situação como estas. Porque isto acontece todos os dias na UCI.”

🍀FIM🍀