O fabuloso destino de Juan e Júlia: uma história de amor que venceu a COVID

7 Maio, 2021

Pelas cinco da madrugada do dia 27 de março de 1981, ainda o sol tardava a fazer a sua primeira aparição naquela manhã de primavera de há quarenta anos, Juan e Júlia deixavam para trás a grande tenda do Circo Royal de Espanha, onde meses antes se tinham apaixonado um pelo outro. E sem medo faziam-se à estrada, de Sevilha até à vila de Sintra, Portugal, destino no qual, pouco depois das onze da manhã desse mesmo dia, prometiam, em frente ao altar, amar-se na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias, para o resto das suas vidas. Este sim, era o maior espetáculo do mundo: o amor.

O turquesa translúcido dos olhos azuis de Juan ilumina toda a enfermaria dos cuidados intermédios da unidade COVID-19 de Infeciologia do Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca (HFF), quando revive esse momento uma vez mais. Juan continua tão ou mais apaixonado por Júlia como naquele dia.
O seu estado inspira cuidados de saúde diferenciados. Não fora a máscara de oxigenoterapia, o aparelho de ventilação não invasiva ao seu lado, e o aparato de profissionais de saúde, envergando equipamentos de proteção individual completos, que se vão revezando na sala, zelando pelos doentes aí internados (que não resistem em demorar-se um bocadinho mais para se enternecer com mais uma das fantásticas histórias do septuagenário antigo trapezista voador), e ninguém acreditaria que trava, ao lado da sua esposa, Júlia, uma batalha contra a infeção por COVID-19.

“A minha vida dava um filme!”, avisa. Esta é só mais uma cena, que junta os melhores ingredientes de um êxito de bilheteira: um grande amor, uma pandemia, um hospital e os seus profissionais de saúde a conspirar e tudo fazer para levar a ação a um “final feliz”.
Os braços de Juan, cobertos por um emaranhado de fios e tubos, necessários para a monitorização dos seus parâmetros vitais, agitam-se no ar e desenham uma perfeita meia-lua, como aquela que Júlia fazia há mais de quatro décadas, a 12 metros de altura e sem rede, suportando o peso do seu corpo apenas com a cabeça. “Foi a única artista de circo a fazê-lo no mundo”, diz com grande orgulho.

Falta-lhe o ar momentaneamente, não da doença, mas da comoção, ao recordar como ambos voavam sobre a grande tenda de circo da sua família, perante as bocas de espanto de mais de 2.500 espectadores, e como no circo nasceu este grande amor entre um trapezista voador espanhol e uma acrobata portuguesa.
“Fazemos essa pergunta quase todos os dias. A Júlia foi contratada pela minha família, que era dona do circo, mas na primeira temporada era só ‘Bom dia’, ‘Boa Tarde… E, do nada, no Natal, em Sevilha, aconteceu, e nem sabemos como foi! Acho que foi Nossa Senhora de Fátima, ou Nosso Senhor que nos quis juntar!”, conclui com devoção.

Este ano não houve grandes celebrações das bodas de esmeralda, devido à pandemia, mas poucos dias depois do aniversário dos 40 anos de casamento de Juan e Júlia, foram ambos infetados pela COVID. De nada valeu usarem duas máscaras cirúrgicas em qualquer deslocação ao supermercado, ou à farmácia: uma distração numa pequena festa de aniversário de um familiar, em casa da irmã de Júlia, arrastou-os a ambos para o internamento em enfermaria COVID do HFF. Júlia, feições finas e porte de atriz dos anos dourados de Hollywood, foi a primeira a ser transportada de ambulância para o HFF. Poucos dias depois chegou Juan.

A enfermeira Sandra Cabaço liderava a equipa de enfermagem nessa noite, no início de abril, na enfermaria COVID-19. Do Serviço de Urgência – Área Dedicada aos Doentes Respiratórios avisaram telefonicamente o sexto piso da Torre Amadora do HFF que seria transferido um paciente que tinha a esposa internada naquela enfermaria.
De imediato decidiram que seria importante juntá-los. Apesar da difícil logística, com mudanças de camas e pacientes, a determinação dos profissionais de saúde do HFF venceu todos os obstáculos.
A equipa fez tudo em segredo: correram integralmente as cortinas da cama de Júlia, justificando-o com a necessidade de privacidade para posicionar a chegada de um novo paciente. E desta forma instalaram de mansinho, a cama de Juan, ao lado da de Júlia, sem levantar quaisquer suspeitas a ambos. “Quando puxámos as cortinas, ali estavam eles, lado a lado, de surpresa! Foi muito bonito, aliás, é muito bonito: eles são completamente apaixonados um pelo outro!”

Juan admite, sem pudor: “A Júlia faz parte do do meu coração; são 40 anos de amor! Foi muito importante tê-la perto de mim. Sinceramente, ponho até a minha mão direita no peito, se tivesse que dar uma pontuação a este hospital dava 100 pontos, ou cinco estrelas!”.

A enfermeira Sandra Cabaço explica que são estes pequenos momentos, de sensibilidade, de amor e de humanidade que alimentam também a esperança dos profissionais de saúde, que lhes dão força para continuar. Seguramente, quando a maldita COVID deixar de fazer mossa, esses momentos ficarão como boas memórias da pandemia.
“Estamos confrontados diariamente por este distanciamento entre os doentes e as suas famílias, e o nosso próprio distanciamento face aos pacientes, devido aos equipamentos de proteção. No último ano testemunhámos situações muito duras e extremas: a vulnerabilidade dos doentes e das suas emoções expostas à nossa frente, famílias desfeitas. A nossa enfermaria foi uma exceção no país e permitiu visitas desde abril de 2020, cumprindo todas as exigências de segurança, sempre que a presença dos familiares pudesse afetar positivamente a evolução do doente, ou em situação de despedida, face à irreversibilidade da doença”, diz a enfermeira do HFF. Mas, indiscutivelmente, “existiu um afastamento, que é uma premissa fundamental para conter a pandemia, e isso afeta-nos também. Estamos completamente de rastos, mas são estes momentos que nos fazem sentir que vale a pena”, reconhece Sandra Cabaço.

A vida no Hospital segue como um grande circo, depois de Juan e Júlia terem tido alta, recuperados da COVID, ao final de mais de um mês de internamento. A cada minuto que passa no HFF mudam-se roupas e disfarces; às vezes, os profissionais de saúde são trapezistas voadores ou contorcionistas; outras vezes, seguem determinados ao longo de corda-bamba; dominam as feras das doenças com o “chicote”, sacam coelhos da cartola como que por magia.
E também acontece, como na história de Juan e Júlia, sermos apenas espectadores, maravilhados, na plateia, com o final feliz. Nesta história, o amor venceu a COVID.