Teleconsultas médicas de especialidade “vieram para ficar” no HFF

17 Fevereiro, 2021

Em 2020 realizaram-se 119.215 consultas médicas sem presença do doente, um crescimento de 386% face ao ano anterior. Um recurso a que o HFF teve de recorrer em tempos de pandemia, sendo o balanço bastante positivo.

 A pandemia pelo COVID-19 teve um natural impacto na atividade programada dos hospitais. O número de casos de infeções pelo novo coronavírus obrigou, em função das necessidades existentes em cada momento, à afetação de serviços de diversas especialidades e à abertura de novos serviços para o tratamento desses doentes.

Deste modo, houve necessidade de canalizar recursos humanos para suportar as respostas criadas. Isto porque, já se sabe que os profissionais são fundamentais para a prestação dos cuidados de saúde aos doentes.

Grande parte do ano de 2020 foi marcado por esta realidade incontornável e o Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca (HFF) procurou encontrar as melhores soluções para que a pandemia cause o menor impacto possível aos seus doentes não-COVID. Os indicadores da produção hospitalar serão impactados pela pandemia, mas existem diversas áreas onde foi possível mitigar esse impacto.

 As consultas externas foram uma dessas áreas. Os indicadores apontam para uma diminuição da atividade que ficou muito aquém dos piores cenários e da diminuição verificada noutros setores hospitalares.

O grande contributo para a manutenção da capacidade de resposta veio de uma modalidade de consultas há muito existente, mas relativamente pouco usada: as designadas consultas médicas sem presença do doente. Tratam-se, como o nome indica, de atos de assistência médica sem a presença do utente, podendo resultar numa avaliação clínica com aconselhamento, prescrição ou encaminhamento para outro serviço.

Esta consulta está associada essencialmente a duas formas de comunicação, designadamente: por telefone ou por correio eletrónico. Em qualquer dos casos é imprescindível a existência de consentimento informado do doente e registo escrito e cópia dos documentos enviados ao doente.

A análise dos números deste tipo de consultas revela crescimentos impressionantes: em 2020 realizaram-se 119.215 consultas médicas sem presença do doente, incluindo primeiras consultas (20.183) e consultas de seguimento (99.032). Este número representa um crescimento de 386 % face ao ano de 2019, o que equivale a mais 94.684 consultas realizadas.

Um recurso que veio para ficar 

Para Ana Monteiro, médica do HFF e Diretora do Serviço de Consulta Externa, o aumento das consultas médicas sem presença do doente “foi um recurso muito importante em tempos de pandemia”. Num contexto de confinamento, em que se apelou ao distanciamento físico entre pessoas e em que era pedido que fossem evitadas deslocações desnecessárias (contexto esse que se mantém), a realização destas consultas permitiu que muitos doentes “continuassem a ter acesso às diversas especialidades médicas”.

No caso do HFF, as consultas desta tipologia têm sido realizadas sobretudo com recurso ao telefone. “Existe efetivamente um conjunto alargado de situações em que pode realizar-se uma consulta sem a presença do doente, sem que isso prejudique a qualidade dos cuidados”, refere Ana Monteiro, apontando como alguns exemplos “a renovação de prescrições médicas, avaliação dos resultados de análises clínicas e seguimento de doentes crónicos”.

As características sociais da população são naturalmente um fator relevante a ter em conta. O HFF serve cerca de 550 mil habitantes dos concelhos de Amadora e de Sintra, com uma pirâmide etária algo envelhecida.

“Para muitos utentes, sobretudo mais idosos, ter uma consulta sem estar frente-a-frente com o médico era sinónimo de pior atendimento”, refere a responsável pela Consulta Externa do HFF, acrescentando que “esse receio é quase sempre ultrapassado quando essa é a única alternativa para que tenham o acompanhamento médico que necessitam”. Para Ana Monteiro, “o balanço destas consultas é francamente positivo, tendo possibilitado responder a muitas das necessidades dos nossos utentes”.

Face a este balanço, uma pergunta impõe-se desde logo: esta solução vai manter-se? A resposta é afirmativa.

“Esta nova realidade criada pela pandemia veio demonstrar que este é um recurso que pode ser utilizado num conjunto alargado de situações e que colhe o agrado de utentes e profissionais de saúde”, diz Ana Monteiro. Do ponto-de-vista organizacional do serviço, os médicos dispõem já de períodos e de espaços físicos específicos destinados à realização deste tipo de atos médicos, mais um sinal de que esta prática irá ter continuidade no dia-a-dia do HFF.

A aprendizagem havida até ao momento permite já pensar noutros passos, estando em preparação a possibilidade de as consultas desta tipologia serem realizadas através de videochamada com partilha de imagem em tempo real. “Será um avanço importante, permitindo alargar ainda mais o tipo de situações em que os nossos utentes tenham uma consulta médica sem necessidade de se deslocarem ao Hospital”, conclui Ana Monteiro.