HFF participa em projetos galardoados no Prémio BIAL de Medicina Clínica 2020

3 Maio, 2021

O Prémio BIAL de Medicina Clínica é um dos mais importantes galardões nacionais na área da investigação médica, tendo sido anunciada a lista de premiados da edição de 2020 no passado dia 29 de abril. O júri decidiu atribuir duas menções honrosas, a projetos de investigação que contam com a participação ativa de equipas do Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca (HFF).
A atribuição de prémios a estas duas iniciativas vem reconhecer e valorizar um trabalho nem sempre visível, mas de grande relevância para a melhoria da capacidade assistencial dos hospitais e para a diferenciação dos seus profissionais: a investigação clínica. O HFF congratula todos profissionais diretamente envolvidos nos projetos agora premiados, dando um especial cumprimento de parabéns aos colaboradores da Instituição que participam nestas iniciativas.

“Zebrafish Avatars, Towards Personalized Cancer Treatment, a multidisciplinary venture” é um trabalho de investigação que recorre a peixes-zebra para tentar desenvolver um teste que determine a melhor opção terapêutica para cada paciente de cancro. Atualmente, as diretrizes internacionais para a terapia do cancro fornecem opções terapêuticas com base nas taxas médias de resposta de grandes ensaios clínicos.
Uma abordagem “tamanho único” que não serve todos os pacientes, já que os tratamentos podem ser eficazes para alguns doentes, mas não para outros. Por isso, muitas vezes os doentes passam por abordagens de tentativa e erro para encontrar a melhor terapia, sujeitos a toxicidades desnecessárias e perdendo “tempo terapêutico”. Assim, um teste capaz de prever as respostas individuais antes do tratamento é uma necessidade crítica para um tratamento personalizado e dirigido. Os resultados são promissores já que este modelo oferece velocidade, resolução celular e a capacidade de realizar um grande número de transplantes. Permite também a avaliação de características cruciais do tumor, como o seu potencial metastático e angiogénico, apenas possível devido à alta conservação genética entre o genoma humano e o do peixe-zebra.
Este trabalho resulta de uma colaboração de esforços de uma equipa multidisciplinar de biólogos, oncologistas, cirurgiões, imagiologistas, radio-oncologistas e patologistas da Fundação Champalimaud e do HFF para desenvolver o modelo Avatar do peixe-zebra. A participação do HFF neste projeto envolveu os serviços de Cirurgia Geral e Anatomia Patológica.

A outra Menção Honrosa premiou o estudo “Abordagem do doente crítico com COVID-19”, coordenado pelo médico João João Mendes, do HFF, que analisa a resposta da medicina intensiva à primeira vaga da COVID-19. A equipa vencedora desta Menção Honrosa reúne profissionais de saúde dos centros hospitalares de referência no combate à pandemia: José Artur Paiva, Roberto Roncon e Mário Branco do Centro Hospitalar Universitário de São João, Filipe Gonzalez do Hospital Garcia de Orta, Paulo Mergulhão do Hospital Lusíadas Porto, Filipe Froes do Hospital Pulido Valente e João Gouveia do Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Norte.
Embora a taxa de letalidade global pelo vírus SARS-CoV-2 não seja elevada (inferior a 4%) encontra-se desproporcionalmente aumentada no doente crítico, com mortalidade descrita entre os 39% e os 72%, dependendo do estudo e das características da população de doentes. Em Portugal, e reportando à primeira vaga, os autores concluem que a taxa de letalidade foi baixa.
Numa análise preliminar, a mortalidade hospitalar dos internados em Medicina Intensiva na primeira vaga da COVID-19 foi inferior a 20%. Os autores apresentam algoritmos consolidados pela experiência para as diferentes formas de terapêutica de suporte de órgão, dedicando especial interesse às diferentes, e por vezes complexas, formas de suporte ventilatório e hemodinâmico.
Em relação à terapêutica específica centram a análise nos antivirais, nos imunomodeladores e anticoagulantes, entre outros, com benefícios já comprovados por ensaios clínicos, e referem outras com potencial eficácia, ainda que com utilização restrita no âmbito de protocolos de utilização clínica ou integradas em ensaios clínicos. Nas conclusões, os autores consideram imperativa a construção de uma infraestrutura nacional no âmbito da medicina intensiva para recolher e trabalhar todos os dados obtidos pela prática, mas também para promover a colaboração interinstitucional para maximizar o acesso e recrutamento de doentes para ensaios clínicos pragmáticos que possam dar resposta às questões clínicas.

Manuel Sobrinho Simões, presidente do Júri, realça a atualidade das obras galardoadas com Menção Honrosa, destacando que foram distinguidos “dois trabalhos que evidenciam a pertinência e urgência da investigação em medicina, por um lado o cancro e as novas terapias personalizadas que marcam a pesquisa que se está a fazer neste campo e, por outro lado, a pandemia que marcou o ano de 2020”. Cada uma destas iniciativas irá receber um prémio no valor de 10 mil euros.

Uma equipa coordenada por Teresa Coelho, diretora do Serviço de Neurofisiologia do Centro Hospitalar Universitário do Porto, foi a vencedora deste prémio, com um trabalho sobre a paramiloidose (conhecida como a doença dos pezinhos). A obra “A Paramiloidose em Portugal e no mundo: de doença fatal a doença crónica com qualidade de vida preservada”, que resulta de uma colaboração entre os dois centros de referência nacionais para a Paramiloidose Familiar, “traça a evolução da paramiloidose desde que foi identificada pelo neurologista português Mário Corino de Andrade na década de 50, a partir do estudo clínico e patológico de um grupo de doentes oriundo predominantemente da região da Póvoa do Varzim e Vila do Conde, até aos nossos dias”, conforme divulgado pelo Júri do prémio.

O Prémio BIAL foi criado em 1984, com o objetivo de incentivar a pesquisa médica e divulgar obras de grande repercussão na área da investigação médica. Decorreu, desde essa data, bianualmente, com os altos patrocínios de Sua Excelência o Presidente da República, do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas e da Ordem dos Médicos.
Reconhecendo e distinguindo a investigação básica e clínica, o Prémio BIAL afirmou-se como um dos maiores galardões na área da Saúde em toda a Europa. Até à edição de 2016, contemplou duas modalidades: o Grande Prémio BIAL de Medicina, destinado a galardoar obras intelectuais escritas, de índole médica, com tema livre, representativas de uma investigação de grande qualidade e relevância científica; e o Prémio BIAL de Medicina Clínica com o objetivo de galardoar um tema livre de elevada qualidade intelectual, dirigido à prática clínica e em que pelo menos um dos autores tem de ser médico nacional de um país de expressão oficial portuguesa.
Ao longo das edições realizadas, este galardão acompanhou a evolução e as tendências da Medicina, tendo premiado diversos trabalhos no âmbito das doenças civilizacionais, genética, medicina molecular, imagiologia, terapêuticas substitutivas e regenerativas, entre muitos outros. Desde a sua instituição, o Prémio BIAL analisou 686 obras candidatas e mobilizou 1742 investigadores, médicos e cientistas de 20 países.