Diário da Primeira Linha no combate à COVID-19 – Santiago Nascimento Filho

18 Março, 2021

Santiago Nascimento Filho, trabalhador de limpeza hospitalar nas Unidades de Cuidados Intensivos do HFF, partilha o que tem sido este seu último ano no combate à COVID-19. Num conjunto de publicações, partilhadas nas redes sociais do HFF, conta-nos como passou de “sushi-man” num restaurante em Lisboa para a Primeira Linha no combate a esta pandemia.

Não deixe de ler este segundo testemunho que aqui partilhamos.

Pode aceder aqui a outros testemunhos:

Diário da Primeira Linha no combate à COVID-19 – Suse Antunes 

Regressaremos brevemente com mais testemunhos dos profissionais da Primeira Linha do HFF.

 

1|PRIMEIRA LINHA – DE “SUSHI-MAN” PARA OS CUIDADOS INTENSIVOS

A vida de Santiago Nascimento Filho mudou radicalmente há um ano. No final de março de 2020, a pandemia e o primeiro confinamento da economia empurraram-no para os anúncios de ofertas de emprego na Internet. E, em poucas horas, Santiago Filho passou de ‘sushi-man’ num restaurante de Lisboa a trabalhador de limpeza hospitalar das Unidades de Cuidados Intensivos COVID-19 do Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca (HFF).

Com 36 anos e sorriso de garoto, Santiago afirma que chegou ao HFF e sem ideias pré-concebidas sobre a tarefa que o esperava. Garante que foi sempre muito bem acolhido na equipa da linha da frente do combate à pandemia, e que se sente como uma peça-chave de uma grande equipa.

O último ano mudou a maneira como encara a vida e Santiago não hesita em querer continuar a ser Profissional de Saúde e que tem o sonho de ser Enfermeiro. Aqui deixamos o seu testemunho e profundo agradecimento.

“Sou da região do Nordeste brasileiro, natural da cidade de João Pessoa, no Estado da Paraíba. Cheguei a Portugal há mais de quatro anos, pela mão de um amigo de infância, que estava sempre a insistir para eu vir conhecer a cidade de Lisboa. E eu respondia sempre: ‘Um dia eu vou, meu amigo’. Acabei por vir, com a ideia de fazer umas férias e Turismo e por cá fiquei. Gosto muito de Portugal!

Antes de trabalhar no Hospital, era ‘sushi-man’ num restaurante de Lisboa. Bom, na verdade, eu fazia um bocadinho de tudo, mas essencialmente o meu trabalho era na cozinha, na preparação. Trabalhava com este meu amigo. Estive ao serviço mais de três anos, e foi uma experiência muito boa – a nossa amizade nunca foi abalada pelo trabalho e o restaurante era e continuará sempre a ser como uma família. Mas a pandemia chegou a Portugal e o restaurante foi muito afetado pelas restrições do primeiro confinamento. Fui forçado a procurar um outro emprego.”

2|SINTO QUE SOU UMA PEÇA-CHAVE DESTA EQUIPA

“Como já tinha alguma experiência em ambiente hospitalar – no Brasil trabalhei na receção de um hospital – não hesitei em responder a uma oferta de trabalho para este Hospital, que encontrei certa manhã, em março passado, num anúncio na internet. Fui contactado no mesmo dia, da parte da tarde, e embarquei nesta aventura.

Cheguei ao HFF e a este posto de limpezas sem ideias pré-concebidas. Queria trabalhar, manter o foco no trabalho, cumprir o meu papel. Fui muito bem orientado na Central de Limpeza – com formação muito completa sobre desinfeções e tudo mais que este trabalho implica, porque iria trabalhar para as Unidades de Cuidados Intensivos (UCI).

Quando entrei pela primeira vez dentro de uma Unidade de Cuidados Intensivos COVID… foi um choque! É duro, muito duro! Agora, entro quase todos os dias nas unidades COVID – faz parte do meu trabalho. Visto o fato de proteção completo, recolho lixos e resíduos contaminados, faço desinfeções. Lido com esta realidade todos os dias.

Nunca estive doente, felizmente não fui infetado pela COVID-19. A segurança é muito apertada na UCI e em todo o Hospital, e nunca houve qualquer falta de material de proteção, como luvas, máscaras ou fatos de proteção. Também nunca facilitei, porque é uma grande responsabilidade que está nas mãos de cada um de nós.

Não sinto que tenho um trabalho menor. O meu trabalho contribui para a segurança de todos os profissionais. Sinto-me sempre muito bem acolhido, e que o meu trabalho é valorizado. Cada um de nós é uma peça fundamental para o sucesso ao combate desta pandemia. Sinto isso – que sou uma peça-chave desta equipa também. Sem o meu trabalho o trabalho dos médicos, enfermeiros seria prejudicado.”

3| QUERO CONTINUAR A SER PROFISSIONAL DE SAÚDE E QUERO EVOLUIR

“Este ano foi uma grande lição. Aprendi que quando nós estamos juntos podemos alcançar grandes feitos, podemos fazer muito pelas outras pessoas, pela nossa família, pelos nossos amigos, e pelo nosso futuro! A nossa ajuda, por mais pequena que seja, os nossos esforços, tudo aquilo que fazemos pelo bem, trará resultados. Não podemos desistir. Temos de continuar em frente, unindo as nossas forças. Num futuro sei que todo este esforço dos profissionais de saúde será compensado.

Quero continuar a ser profissional de saúde. Quero muito evoluir.

Gostava de ser enfermeiro – estou sempre ao lado dos enfermeiros no serviço, as fronteiras entre médicos, enfermeiros, auxiliares e mesmo pessoal da limpeza esbateram-se muito, mudou completamente – somos uma comunidade, uma família que se ajuda uns aos outros.

Quando saio do trabalho sou a mesma pessoa, o mesmo Santiago. Claro que a pressão atenua, é um alívio voltar à “vida normal”, poder descansar na minha casa, poder ler um livro, ouvir uma música, sabendo que amanhã recomeça tudo de novo.  Mas algo mudou na minha vida mudou e é algo muito, muito positivo. Eu vejo a vida de uma forma diferente. A vida é um bem, cada momento da vida deve ser valorizado”

🍀FIM🍀